Jornal 'A Tarde
de Salvador'
1. Quais as vantagens de se consumir se alimentar de
vegetais e frutas cruas?
As sociedades médicas britânica e belga já
consideram a dieta vegetariana como medicinal. E este conceito
já conquista sociedades médicas de outros países.
É questão de tempo para que esta forma de alimentação
seja considerada medicinal por todas as sociedades médicas
do planeta, inclusive a brasileira.
A alimentação viva era preconizada por Hipócrates,
o pai da medicina ocidental. Ele dizia que " a Natureza
é quem cura, sendo o médico apenas um assistente
da Natureza".
Se pesquisarmos artigos científicos recentes nesta área
do conhecimento, veremos que a cada dia aumentam as publicações
que dão suporte e segurança para a alimentação
vegetariana em geral, seja na promoção de saúde,
seja na terapêutica das doenças. Por ser altamente
hipocalórica, enzimática e mineralizada, a dieta
de vegetais vivos e orgãnicos promove uma reestruturação
do epitélio digestivo e das funções pancreática
e hepática, além de adequada absorção
e motilidade intestinal.
A ingesta de vegetais crus dá também suporte
à microbiota (flora) intestinal. Ao substituir as bactérias
altamente patogênicas - estimuladas pela alimentação
contemporânea - por lactobacilos e bifidobactérias,
presentes em abundância na seiva de frutas e verduras
orgânicas, uma verdadeira transformação
toma lugar em todos os níveis do organismo.
Ocorrem efeitos flagrantes ao nível neurológico
e psíquico, imunitário, inflamatório, cardiovascular,
endócrino e osteo-muscular. O sangue equilibra-se, tornando-se
menos viscoso e tamponando variações iônicas,
de glicose e pH.
A dieta contemporânea estrutura-se sobre o trinômio
açúcares-farináceos-gordura industrial,
que resume-se por amidos e carne industrializada cozidos ou
fritos, "empurrados" por farta quantidade de refrigerantes
e doces. Esta dieta "empaca" a digestão e desequilibra
o metabolismo.
O resultado é o que estamos observando: obesidade em
populações de baixa renda, crianças alérgicas
e diabéticas, níveis cada vez mais altos de doenças
cardiovasculares e degenerativas tal como o câncer, em
uma faixa etária cada vez mais jovem. Em meu consultório
e também junto ao Programa de Saúde da Família,
o objetivo principal é afastar a população
atendida deste trinômio mórbido.
2. Carnes e peixes também devem ser comidos
crus? Dizem que fãs de carpaccio, kibe cru ou sushi,
correm um risco maior de contaminação por bactérias
ao ingerir esses alimentos, sobretudo, quando não se
conhece a procedência dos produtos. Pesquisadores da Universidade
de Brasília, por exemplo, detectaram em um estudo altos
níveis de coliformes fecais e chumbo em algumas amostras
de sushis e sashimis em oito restaurantes de Brasília.
Quais as recomendações para evitar possíveis
riscos?
Alimentar-se de carne é usufruir das proteínas
acumuladas pelo animal herbívoro, ave ou pescado.
Grande parte da carne comercializada é produzida artificialmente,
quer dizer, dando vida artificial aos animais, que são
criados em cativeiro como meros objetos produtores de proteína.
Desta forma ingere-se, além da proteína acumulada,
pesticidas, antibióticos, metais pesados, corticóides
e diversas outras substâncias aplicadas na engorda artificial
do animal, todas elas - lamentávelmente - também
acumuladas.
Por outro lado, é flagrante a contaminação
por microorganismos, principalmente no Brasil, onde metade dos
matadouros é clandestina.
A carne mistura-se às fezes evacuadas no desespero da
antecipação da morte pelo animal.
A presença de coliformes (bactérias fecais) é
maciça. Se considerarmos a morte de centenas de pessoas
em Seattle, EUA, após a ingesta de hambúrgueres
da rede "Burger King" pela letal Escherichia Coli
H527, o mal da vaca louca, a gripe aviária e centenas
de tipos de contaminações seguidas de intoxicação
e morte dos consumidores de carne contaminada, nos afastaremos
por definitivo desta forma inapropriada de dieta.
Se ingerirmos comida morta, ela nos matará. Mas se ingerirmos
alimento vivo, o mesmo nos vivificará.
As bactérias existem para degradar máteria desvitalizada,
por isto prevalecem na dieta cozida. Os macrobióticos,
por exemplo, nunca "requentam" um prato préviamente
cozido e privilegiam alimentos orgânicos.
O alimento vegetal vivo é práticamente isento
de microorganismos pela presença de agentes bacteriostáticos
e antioxidativos presentes na própria estrutura da planta.
Prato vegano: 500 bactérias patogênicas X prato
padrão contemporâneo 1.000.000.000 bactérias
patogênicas (Fungalbionics, Constantini e cols., 1994).
Alimentar-se de "quentinhas" e "self-services"
é uma espécie de roleta-russa.
A dieta contemporânea também não dá
suporte ao ambiente, criando exércitos de excluídos
do campo, favorecendo as monoculturas extensivas à pequena
produção rural, privilegiando organismos genéticamente
modificados e uso de pesticidas aos métodos orgânicos
amigáveis ao solo.
A maior causa de desmatamento da Amazônia é a
expansão de pastos para gado de corte ou a produção
de grãos para forragem deste mesmo gado.
3. O consumo de alimentos crus seria uma forma de garantir
o aproveitamento máximo dos nutrientes. Qual o máximo
de aquecimento ao qual os "alimentos vivos" (crus)
podem ser submetidos?
A partir de 60 graus centígrados, começam a alterar-se
as estruturas moleculares. Ao elevar-se mais a temperatura,
proteínas desnaturam-se, enzimas perdem a atividade,
ácidos graxos poliinsaturados hidrogenam-se e fitonutrientes
antioxidantes desaparecem. Todos estes nutrientes são
considerados essenciais pela nutracêutica, moderno ramo
da ciência.
Na alimentação hiper-aquecida, ao atingirem-se
os 100 graus centígrados, 50% das proteínas desnaturam-se
e valores próximos a 100% são observados para
as vitaminas do complexo B. As vitaminas em geral perdem os
complexos moleculares que garantem o sinergismo e máxima
absorção.
4. Muitas pessoas se queixam que adotar uma alimentação
mais natural tem um custo mais elevado do que a alimentação
tradicional. A dieta do crudicismo é para as camadas
mais favorecidas da sociedade?
Existem dietas de baixa, média e alta renda, na alimentação
contemporânea. A alimentação viva não
foge à regra.
No Programa de Saúde da Família, duas comunidades
de caráter misto rural/urbano receberão o ensino
do preparo do "suco verde" ou "leite da terra",
feito com verduras orgânicas produzidas pelas próprias
comunidades. Objetiva-se, através deste suplemento, melhoria
da saúde, redução do uso de medicamentos
e ganhos de renda, obtidos pela comercialização
do excedente das hortas.
Não objetivamos um modelo paternalista e filantrópico,
mas auto-sustentável, com reflexos na saúde do
homem e da comunidade e no uso apropriado da terra.
5. Há situações em que o cozimento
pode aumentar a absorção de nutrientes pelo organismo.
É o caso de leguminosas como feijão, soja e lentilha,
ricos em substâncias que atrapalham a absorção
de minerais. O problema não estaria em cozinhá-lo
demais? Alguns nutricionistas afirmam que o cozimento em si
não destrói necessariamente os nutrientes. O calor
prolongado, sim.
Sou autor de um livro denominado "Lugar de Médico
é na Cozinha" e conduzo um curso de extensão
universitário denominado "Bases Fisiológicas
da Terapêutica Natural e Alimentação Viva".
Tenho um sítio eletrônico em construção,
denominado www.oficinadasemente.com.br onde poderão obter-se
brevemente informações a respeito deste livro,
palestras e cursos.
Em nossas oficinas culinárias, ministramos aulas de
germinação de sementes, em especial leguminosas.
As lentilhas, por exemplo, germinam de forma rápida e
excepcional, e passam a ter o sabor de um milho verde bem fresco.
São fácilmente digeríveis e absorvíveis,
apresentando além do sabor mineralizado e suculento um
alto teor de nutrientes, em especial ferro e proteínas.
Todos os grãos e sementes potencializam-se e tornam-se
biodisponíveis com a germinação.
Grão de bico germinado é muito adocicado, devendo
ser ingerido com temperos amargos, tais como hortelã
ou manjericão. Soja e amendoim germinados eu recomendo
com restrições, por motivos distintos, respectivamente,
indigestibilidade e contaminação por fungos.
Germinamos também cereais. No trigo germinado, por exemplo,
reduzem-se os níveis de glúten.
6. Para os ayurvédicos, comer está relacionado
à eliminação de toxinas. Tudo o que entra
deve sair do corpo para que nele não sobrem restos de
comida se decompondo. Pelo fato de serem de lenta digestão,
os alimentos crus não são bem-vindos. O que acha
desse conceito?
Sim, eles denominam este processo de "panchakarma",
ou seja "limpeza dos canais energéticos".
A dieta ayurvedica original é viva. A Medicina Ayurveda
denomina os alimentos vivos de satvicos, ou seja, que promovem
desintoxicação e elevação espiritual.
Para o equilíbrio dos doshas, diferentes formas de constituição
biológica, deve-se individualizar o padrão alimentar.
O cozimento maciço na Índia moderna é
recente, e resultado de uma aculturação ocorrida
nos quatro cantos do planeta. Isto ocorreu devido à hegemonia
da "Teoria do germe" do Dr. Louis Pasteur, em detrimento
da "Teoria do terreno biológico" proposta pelos
Drs. Antoine Bèchamp e Claude Bernard, ainda no século
XIX.
O hiper-aquecimento e a pasteurização tornaram-se
quase que obrigatórios.
A alimentação viva é a dieta original
do homem e de todos os outros seres do planeta.
No início do século XX não havia sequer
treinamento médico para a reversão de infartos
do miocárdio, tal a raridade destes eventos. Hoje os
ataques cardíacos e outras falências cardiovasculares
são os maiores responsáveis pela mortalidade e
morbidade nos Estados Unidos e no Brasil.
7. Segundo alguns nutricionistas, a dieta crudicista
também pode implicar em alguns problemas. As duas principais
patologias que podem afetar seus seguidores é a anemia
por carência de vitamina B12 (esta vitamina só
existe no reino animal) e a desnutrição protéica
que poderá levar a patologias como o pseudo-parkinsonismo,
lesões do sistema nervoso central além de uma
infinidade de doenças carenciais.
Em dez anos como cirurgião e endoscopista só
vi quatro casos de anemia perniciosa, dois no Brasil e dois
na Alemanha. Eram devidos à não produção
de fator intrínseco pelas células principais da
mucosa gástrica. A inexistência deste fator impede
a absorção da vitamina B12 pelo intestino delgado.
É raríssima a apresentação de anemia
perniciosa por exclusiva deficiência nutricional. Curiosamente,
esta hipovitaminose é mais comum em onívoros (que
comem de tudo) que nos vegetarianos.
A carne acumula a vitamina B12, obtida pacífica e pacientemente
pelos herbívoros. Mas lembremos que o cozimento da carne
destrói por completo esta vitamina e seus coadjuvantes,
como a biotina e o ácido fólico (dados do Instituto
Max-Planck de Nutrição, Alemanha).
Entre os vegetarianos, a maior causa de queda de B12 é
dieta mal equilibrada, que não supra as bactérias
intestinais benéficas. Às vezes prescrevo suplemento
de B12 somado às medidas exclusivamente culinárias.
Este é aliás o único suplemento requerido
por um vegetariano.
Os maiores produtores de B12 são os organismos homeostáticos
do solo, notadamente os lactobacilos presentes no intestino
de animais herbívoros. Nós também podemos
manter populações de bactérias produtoras
de B12 em nossos intestinos.
A alimentação viva inclui os probióticos
produzidos através de cereais, sementes e hortaliças
fermentados. É uma nutrição bacteriana.
O vegetariano pode alimentar-se adeqüadamente de proteínas
na dieta, através de frutas, cereais, raízes,
leguminosas, sementes, castanhas e hortaliças.
Existem inúmeros atletas de nível olímpico
que são vegetarianos.
8. Segundo os princípios da medicina chinesa,
no inverno o corpo necessita de comida quente, pois a ingestão
de alimentos crus resfria ainda mais o corpo. Já no verão,
o corpo necessita de alimentação mais fria, então
os alimentos crus seriam adequados.
O alimento que aquece a célula não necessita
estar cozido na panela.
O leite de gergelim, o queijo de girassol ou o chocolate de
abacate são alimentos vivos altamente calóricos,
mas fornecem estas calorias através de gorduras leves
e proteínas, reduzindo os açúcares e amidos
e a conseqüente necessidade da produção de
insulina pelo pâncreas.
No inverno tornou-se hábito comer amido e acúcar
em excesso, contribuindo para a hiperinsulinemia, dislipidemia
e obesidade prevalentes neste período.
Meus pacientes e aprendizes de culinária mantém-se
bem aquecidos no inverno, alimentando-se de sementes oleaginosas
e fazendo pratos ditos "amornados", oferecidos a uma
temperatura quente, mas que não queima a língua.
No verão preparamos hortaliças através
de cozimento mecânico ou fermentativo e comemos muitas
frutas. É uma alimentação nutritiva e refrescante.
9. Sobre a necessidade de uma alimentação
equilibrada, como pregam alguns nutricionistas, com uma proporção
adequada de carboidratos (açúcares), lipídios
(gorduras) e proteínas. O que o senhor tem a dizer?
A alimentação viva é mineralizada e oferece
enzimas, antioxidantes e óleos essenciais. A queima apropriada
de combustíveis celulares é obtida a partir de
uma predominância de lipídios e proteínas
saudáveis, mantendo níveis baixos de carboidratos.
A dieta hipocalórica é chave para o rejuvenescimento
celular, prevenção do câncer e longevidade.
10. Há alguma pergunta ou assunto que eu não
tenha abordado que o senhor queira comentar?
Ufa! Tem sim, mas acho que já ficou longo demais...
deixemos para um "segundo e terceiro capítulos"
Obrigada!
Shalom... Paz seja convosco
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Fonte: www.oficinadasemente.com.br