
Palestra de Aris
La Tham
36°
Congresso Vegetariano Mundial
Florianópolis, Novembro 2004

"It's not the food in your life,
but the life in your food that nourishes...."
"Não é o alimento em sua vida,
mas a vida em seu alimento é que nutri...."
por Aris La Tham
(resumo)
Gostaria de agradecer muito pela oportunidade maravilhosa
de estar aqui nesta conferência para compartilhar conhecimentos
com vocês e crescer juntos. Tem sido uma grande viagem,
desde que deixei o Panamá, onde nasci, 57 anos atrás.
Saí de lá aos 17 anos e cresci numa tradicional
família afro-caribenha. Meus pais eram da Jamaica e de
Barbados e foram para o Panamá para a construção
do canal. Cresci nesse país latino- americano, fui à
escola e educado em língua espanhola. Vivendo na zona
do canal, que estava sob o domínio dos EUA, cresci numa
área com três culturas, três línguas,
três tipos de alimentação, três costumes,
tudo ao mesmo tempo.
Vivi lá até os 17 anos e mudei para o Brooklin,
em Nova Iorque, onde fiz o ensino médio e fiquei conhecendo
a Standard American Diet (dieta americana padrão), também
conhecida como S.A.D. diet (dieta triste). Fiquei conhecendo
coisas como cachorro quente, hambúrguer, mortadela etc.
Tive de me adaptar a esses costumes, mas percebi que minha energia
estava decaindo. Quando fui à universidade nos anos 60,
durante a época dos movimentos culturais alternativos,
a era do Vietnã, a época do movimento back-to-the-land
(volta à terra), a geração hippie, o movimento
negro (black-power), nessa época, 34 anos atrás,
adquiri consciência da minha tradição alimentar
e me tornei vegetariano.
Tornar-se vegetariano dentro do campus universitário
foi muito motivador para o meu intelecto. Foi uma decisão
analítica, uma decisão muito inspiradora e revolucionária.
Seis anos depois disso, passei a consumir apenas comidas cruas,
ou comidas vivas, que agora defino como “alimentos preparados
pelo sol”. O conceito, o princípio por trás
dos “alimentos preparados pelo sol” é que
o processo de crescimento das comidas é o processo de
cozimento. Então, o período de tempo que uma planta
leva para florescer, atingir a maturidade e amadurecer é
o processo de cozimento. O alimento está pronto, perfeitamente
cozido da maneira mais metódica e científica possível.
O chef é o sol. O calor do sol cozinha a comida durante
o processo de crescimento.
Muitos de nós, seres humanos, acreditamos que podemos
melhorar o trabalho de Deus, o trabalho da Mãe Natureza.
Pegamos a planta já madura e a fritamos, cozinhamos,
assamos, etc. Isso é um insulto ao Criador, é
como dizer a ele “Você não completou seu
trabalho, as plantas não estão prontas e eu vou
completá-las”. Fazendo isso você está
matando os vegetais, matando os alimentos, você está
destruindo a energia vital das comidas.
Plantas, plantas que servem de alimentos, animais e seres humanos,
todos funcionamos num nível enzímico. Nossa força
vital depende da atividade enzímica dentro de nosso sistema.
Enzimas são catalisadoras, engenheiras sensíveis
ao calor. Quando você expõe qualquer organismo
vivo a temperaturas acima da maior temperatura no planeta, que
é de 57° celsius registrada no Vale da Morte na Califórnia,
que é chamado assim porque não há vida
lá, você mata suas enzimas, você mata a vida,
você destrói a ética daquela vida, daquele
alimento, daquele animal e dessa forma a comida não consegue
promover ou manter a vida em um nível otimizado. Isso
ocorre porque, nesse processo, as enzimas digestivas necessárias
para facilitar a digestão são destruídas.
Comidas proteicas como nozes, sementes, abacate e coco têm
propriedades digestivas capazes de auxiliar na absorção
de proteínas e de gorduras, mas se você mata suas
enzimas, elas perdem essas propriedades e não conseguem
mais participar do processo digestivo. Assim, internamente,
nosso corpo vai precisar produzir as enzimas digestivas necessárias
para digerir os alimentos. Mas a produção dessas
enzimas digestivas é o maior trabalho que você
pode requisitar ao seu corpo, é uma tarefa monumental.
O corpo é forçado a produzir uma quantidade extra
de enzimas durante a vida inteira, sejam elas enzimas digestivas
ou enzimas metabólicas, para executar todas as nossas
tarefas vitais. Nossos órgãos, os rins, os pulmões,
o coração, todos eles produzem enzimas específicas
constantemente para nos manter vivos.
Quando o corpo é desafiado a produzir essa quantidade
excessiva de enzimas digestivas, a sua produção
de enzimas metabólicas diminui, principalmente quando
comemos aqueles pratos enormes de comida cozida em eventos como
esse, em casa ou em qualquer lugar. Não importa se comemos
proteínas animais ou vegetais, não importa se
comemos tofu, frango ou peixe. Se cozinhamos esses alimentos,
suas enzimas digestivas são mortas e o corpo vai ter
de compensar essa perda, produzindo uma quantidade apropriada
de enzimas digestivas para digerir estes alimentos.
Por isso é comum ter sono logo após de comer
pratos enormes nas refeições ou de se alimentar
de comidas pesadas que foram cozidas. Seu corpo vai trabalhar
de um modo intensivo para produzir as enzimas digestivas e vai
diminuir a produção das enzimas metabólicas.
O coração, os pulmões, os rins dizem:
— Me dá um tempo. Você bateu um pratão
de arroz integral, de tofu e de outras comidas cozidas e agora
você está produzindo enzimas digestivas para processar
toda essa comida, mas não está mais produzindo
uma quantidade adequada de enzimas metabólicas para que
eu possa fazer meu trabalho. Por isso eu vou ter que descansar
um pouco. Me dá um tempo, assim você vai poder
produzir toda essa quantidade de enzimas digestivas.
E é assim durante toda a nossa vida, por anos e anos.
Mas o que é isso que estamos fazendo? Estamos torturando
nossa reserva de enzimas. Estamos produzimos muita enzima num
ritmo forte e a conseqüência é que comprometemos
todo o nosso banco de enzimas, levando-o à falência.
Daí alguém vai dizer “seu sistema imunológico
está comprometido”. E agora seu corpo não
tem mais a capacidade de se defender, pois a perdeu processando
comida de uma forma para a qual não foi projetado.
Os seres humanos estão neste planeta há pelo
menos um milhão de anos e faz apenas 100 mil anos que
usamos o fogo. Portanto, por 900 mil anos os seres humanos não
comeram alimentos cozidos. Com esse dado histórico, sabemos
por fato e pela natureza que não somos seres de comida
cozida. Faz 100 mil anos que tentamos nos adaptar aos alimentos
cozidos e vemos os resultados: os hospitais, as doenças,
as guerras e o stress porque não podemos adaptar de modo
consistente o sistema digestivo humano à uma dieta de
alimentos cozidos. É hora de abandonar o experimento
e voltar à vida. E você não volta à
vida a partir da morte. A morte não pode produzir a vida.
Quando comemos esses alimentos que estão mortos, que
estão desvitalizados, estamos na verdade matando a nós
mesmos. O processo de morte começa no nascimento, quando
não amamentamos os bebês pequenos. Os bebês
precisam ser alimentados com leite materno, eles não
têm um sistema digestivo até os dois anos! Leva
dois anos para um lactente desenvolver um sistema digestivo,
então por dois anos ele tem que ser amamentado! A mãe
precisa nutri-lo, dar ao bebê uma transfusão de
sangue através do leite materno. Se esse bebê for
alimentado com comida que não consegue digerir, especialmente
a cozida, a comida vai se assentar em seu sistema, vai fermentar,
apodrecer, vai se decompor, e então haverá muco,
narizes escorrendo e todas as doenças infantis. Essa
é uma crise alimentar. Então, o que começamos
a fazer? Começamos a treinar os bebês, a treinar
nossos corpos para tolerar alimentos mortos. Começamos
a nos treinar para desenvolver células que acumulem nossos
dejetos.
Quando essas crianças crescem, na puberdade, vemos o
que acontece com os jovens. Vemos as espinhas e todos os desafios
pelos quais eles têm de passar. Vemos as meninas que começam
a menstruar e produzir óvulos que, se não são
fertilizados, têm de ser eliminados por volta de 14 dias
após a ovulação. Constatamos que esse ciclo
menstrual e que o próprio sistema reprodutivo têm
funcionado como um canal auxiliar para eliminar toxinas. Então,
a cada ciclo menstrual, as mulheres estão eliminando
não só o óvulo não fertilizado,
mas também uma série de toxinas acumuladas nos
últimos 28 dias. Dependendo dos tipos de alimentos que
você come, há uma reação diferente.
Por exemplo, muita gordura causa cólica. Muitos produtos
de origem animal na dieta aumentam o tempo de sangramento. São
fatos que precisamos levar em conta.
Quando as jovens têm a sua primeira gravidez, elas param
de ovular e de menstruar e param também de eliminar toxinas
a cada 28 dias. Então, no primeiro ou no segundo mês
de gravidez as mulheres enjoam e vomitam, geralmente pela manhã.
À noite, enquanto dormimos, jejuamos e o corpo libera
toxinas. Essas toxinas precisam ser eliminadas quando acordamos.
Por isso a mulher grávida vomita. Seu corpo, nos primeiros
meses de gravidez, está tentando encontrar uma nova forma
de eliminar toxinas, já que a menstruação
está suspensa. Nos meses seguintes o corpo estoca essas
toxinas e a mulher engorda 13, 18, 22 quilos de puro lixo. Se
o bebê tem 3 quilos, os outros 10, 15, 19 quilos são
lixo.
Na hora do parto, as células estão trancadas,
cheias de gordura e a mulher vai ter de abri-las num trabalho
de parto doloroso. Mas, se ela se alimenta de comidas que não
acumulam essa quantidade de toxinas, o parto é suave
e tranqüilo.
